Ratatouille, de Brad Bird e Jan Pinkava (EUA)

Por Rodrigo Fonseca

Tratado hoje como iguaria das mais finas, umratatouille típico junta ingredientes que costumam arrancar um enjoado "Bleeeeerg!!" de qualquer criança. Tome nota:  berinjelas, abobrinha, pimentão vermelho... e por aí vai. O mais recente longa-metragem da dobradinha Disney/Pixar foi batizado em referência ao tal manjar dos deuses parisienses. E também a um ratinho serelepe cuja ambição maior é se tornar um cozinheiro. Na telona, o tradicional prato da cuisine fraçaise ganha um visual de fazer salivar o mais seletivo dos paladares. Em parte, isso vem do esforço do animador Brad Bird ("Os incríveis") de sensorializar cada centímetro da Paris recriada por ele em polígonos digitais. 

Ratatouille (2007), o filme, é o ângulo de 90° na trajetória da Pixar em busca da consolidação de uma gramática narrativa (e plástica) própria. Desde "Toy Story" (1995), um marco histórico para o cinema em sua relação com a computação gráfica, a produtora vem estabelecendo uma pesquisa de linguagem que varia da timidez ("Procurando Nemo", "Vida de inseto") ao risco ("Carros"). Com as aventuras de Remy, o camundongo mestre-cuca (dublado com perfeição na versão brasileira por Philippe Maia), essa pesquisa alcança o plan(alt)o da elegância, sem que esta sacrifique uma aura de inocência que parecia perdida a partir dos arrotos dos "Shreks" da concorrência. Brad Bird trata um universo distante dos olhos infantis - a cozinha - com a mesma mirada de espanto que um menino teria ao adentrar os bastidores de um grande restaurante. Tudo que se passa no lado de lá das mesas onde clientes famintos sorvem sopas quentes é retratado com um tratamento de cor acentuado, e uma lapidação quase parnasiana de detalhes. 

Cada taça, cada talher, cada bandeja trazem um brilho de novidade. Nas dispensas onde Remy cata cebolinhas, salsa e coentro, cada alimento é ressaltado com esmero gráfico, para sensibilizar a percepção do público, atiçando-lhe a fome por invenções animadas. A cada plano, Bird apresenta uma nova forma de utilização dos recursos do 3D. Quando Remy sai às ruas, Paris também explode em luzes simetricamente desenhadas para tornar a cidade ainda mais atraente do que é. O que torna o filme tão provocante é essa maneira de não deixar nenhuma potencialidade plástica na cenografia quieta, obrigando as pupilas do espectador a percorrer uma maratona cromática. 

Para além das alegrias formais, há uma discussão sobre o papel do artista. Remy precisa cortar o cordão umbilical que o prende a seu passado para alcançar um futuro de glórias. O mesmo movimento é exigido do crítico Anton Ego (cuja voz, nos EUA, é a de Peter OToole, e, no Brasil, de Lauro Fabiano, ás da dublagem), que tem que confrontar suas convicções pretéritas para valorizar um novo sabor. Aliás, raras vezes os críticos receberam um retrato tão denso no cinema quanto em Ratatouille, cuja visão para a classe busca uma humanidade que ela, muitas vezes, tem vergonha de assumir.  

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