Relatos Selvagens (Relatos Salvajes), de Damián Szifrón (Argentina / Espanha)

Por Nelson Hoineff

Em nome de Jesus

 

É impossível ver Relatos Selvagens sem que filmes como Um Dia de Fúria (1993) venham à cabeça. A excepcional obra de Joel Schumacher fala sobre os limites da tolerância do ser humano aos reveses do cotidiano e, embora prosaica na aparência, estabelece uma sinergia imediata e complexa com qualquer espectador cujos limites sejam diariamente testados pela capacidade da vida de abusar do gênero humano.

 

O argentino Damián Szifrón faz aqui a mesma coisa em seis tempos de abrangências diferentes. Se Um Dia de Fúria pode parecer uma inspiração óbvia, há citações quase literais em alguns episódios, em especial ao turco 3 Macacos (2008) de Nuri Bilge Ceilan, no qual, tal como aqui, a culpa de um acidente é “vendida” ao elo mais fraco de uma cadeia de trabalho no universo de uma família.

 

Sim, Relatos Selvagens fala por nós, diz o que gostaríamos de dizer, interpreta nossa perplexidade diante de situações adversas. Poder-se-ia dizer que, no extremo desse pensamento, seria forte candidato a prêmios como o do Ofício Católico de Cinema. Ao expiar nossas culpas, o filme de Szifrón é profundamente cristão. Mas isso é só a ponta do iceberg.

 

Ainda que com dinheiro espanhol (é produzido por Almodóvar), Relatos Selvagens é um filme argentino, e portanto fecundado na escola que faz hoje um dos melhores cinemas do mundo. Ousa na forma e na construção dos personagens. Um dos melhores episódios, se é que se pode estabelecer este ranking, é justamente aquele no qual personagens e situações parecem mais improváveis – inverossímeis, se adotarmos uma ótica realista. Mas é justamente a longa cena de um casamento judaico, polvilhado por ciúmes represados da noiva, que vai surtar com um discurso tão profundamente realista que o espectador se recusa a acreditar no que está vendo, que Szifrón mostra suas cartas. É um realizador jovem, bem menos conhecido internacionalmente que Campanela, para não ir muito longe, mas profundamente afinado com o grande cinema argentino que se faz neste momento. Um cinema voltado para o ser humano e em inúmeros casos – Um Conto Chinês, O Segredo de Seus Olhos – para uma reflexão consistente sobre a vida. Não devemos temer dizer. O cinema argentino contemporâneo – o bom cinema argentino contemporâneo, porque comediotas em torno de artistas de TV também poluem suas telas – olha de frente para o ser humano e gratifica o espectador com algo mais nobre, inteligente e revelador do que histórias narrativas que constituem a maioria da produção mundial e simplesmente não querem dizer coisa alguma.

 

O filme constitui quase uma unanimidade entre a crítica do Rio de Janeiro. Entre os quase 30 votantes aos melhores de 2014, não me lembro de mais que uma ou duas listas em que não tenha aparecido. Pessoas de diferentes repertórios culturais e, sobretudo, repertórios de vida se encontram nele em algum momento. É uma experiência quase mística, uma obra em que alguém está fazendo cinema de primeira qualidade, mas ao mesmo tempo, por mais rasteira que seja a leitura que dele se possa fazer, está falando por nós, expiando as nossas culpas – e nem é em nome de Jesus.

Relatos Salvajes – Argentina, 2014 - Direção: Damián Szifron – Roteiro: Damián Szifron – Produção: Agustín Almodóvar. Pedro Almodóvar, Esther Garcia, Matías Mosteirín, Hugo Sigman - Fotografia: Javier Julia – Montagem: Pablo Barbieri Carrera, Damián Szifron – Elenco: Rita Cortese, Ricardo Darín, Nancy Dupláa, Dario Grandinetti, Oscar Martinez, Osmar Núñez, Maria Onetto, Erica Rivas– Duração: 120 minutos.

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