Rush, de Ron Howard (EUA)

Por Mario Abbade

Rivalidade a toda prova

 

Filmes sobre automobilismo costumam ser fracassos de crítica e público, mesmo com atores consagrados, como 500 Milhas (com Paul Newman, de 1969) e As 24 Horas de Le Mans (com Steve McQueen, de 1971). Algumas vezes, são produções quase didáticas sobre as corridas, que afastam o espectador à espera de algum contexto. Em outras, o assunto consegue render algum dinheiro quando tratado na galhofa, com cenas de ação impossíveis e sem sentido (caso da franquia Velozes e Furiosos). Rush: No Limite da Emoção não se encaixa em nenhum desses perfis.

 

O longa de Ron Howard (vencedor do Oscar por Uma Mente Brilhante, em 2001) é um estudo profundo sobre a rivalidade. O roteiro inteligente de Peter Morgan (indicado por A Rainha, de 2006, e Frost/Nixon, de 2008) é baseado no confronto real entre o austríaco Niki Lauda (Daniel Brühl, de Adeus, Lênin!) e o britânico James Hunt (Chris Hemsworth, de Thor) na temporada de Fórmula 1 de 1976, num embate histórico que lembra as lutas entre Ali e Foreman ou mesmo a disputa entre Mozart e Salieri. A Fórmula 1 é só um cenário, a trama poderia se passar dentro de uma empresa ou em outro ambiente qualquer, porque o tema do filme é sobretudo o confronto entre duas personalidades opostas.

 

Pelos nomes associados à produção, Rush (no original) parece um típico blockbuster. Não é. Feito de forma independente, sem um grande estúdio por trás e com um orçamento bem menos folgado, é um filme em que os envolvidos baixaram seus cachês para transformar o projeto em realidade. Tanto que foi completamente ignorado pelo Oscar, tendo recebido só indicações e prêmios concedidos pelos críticos e pela imprensa especializada.

 

O confronto entre Lauda e Hunt nas corridas era também um espelho da vida que os dois levavam fora das pistas, onde a maneira de guiar era consequência das origens e do jeito de existir de cada um. Lauda era um profissional estudioso e extremamente técnico, dedicado à equipe, não gostava de correr riscos desnecessários. Hunt era um bon vivant, capaz de manobras arriscadas, mesmo que isso resultasse num acidente. Enquanto Niki Lauda era um estrategista vienense disciplinado de sangue frio, e todas as suas ações eram pensadas, James Hunt é considerado até hoje o último piloto “romântico” da Fórmula 1. Uma foto clássica do esporte mostra Hunt sentado em um carro com uma lata de cerveja em uma mão e um cigarro na outra, tendo uma linda garota ao seu lado. Mas o piloto quase não é lembrado pelo seu ato de heroísmo no acidente em que morreu Ronnie Peterson, quando retirou o sueco do carro ainda em chamas em 1978. No filme, não há vilões ou heróis. São personagens humanos e ambivalentes que parecem o reflexo, invertido, um do outro, como Batman e Coringa.

 

Além da atuação impecável dos protagonistas, Ron Howard executa sequências eletrizantes usando estilo retrô e muita saturação, com fotografia de Anthony Dod Mantle, para dar um ar nostálgico ao longa. O diretor deixa de lado o melodrama supérfluo, ao qual seu nome ficou associado, por uma abordagem mais naturalista. Howard coloca o espectador no meio da corrida – dá para sentir o cheiro da borracha queimada. Essa impressão, além das imagens, é impulsionada pelos dois estilos em rota de colisão, movidos a um combustível que alimenta convicções e dúvidas.

 

Rush – Estados Unidos, 2013 – Direção: Ron Howard – Roteiro: Peter Morgan – Produção: Brian Grazer, Ron Howard, Peter Morgan, Eric Fellner, Andrew Eaton – Fotografia: Anthony Dod Mantle – Montagem: Daniel P. Hanley, Mike Hill – Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara, Pierfrancesco Favino – Duração: 123 minutos.

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