
Setembro 5
Por Carlos Brito
Era irresistível para todos.
Irresistível para a Alemanha, que desejava descontruir — ou, ao menos, amenizar — a imagem do nazismo associado ao esporte construída 36 anos antes, nos Jogos de Berlim.
Irresistível para Israel, cuja delegação entrou no país carregando, com orgulho, a bandeira nacional no território natal dos engenheiros do maior massacre perpetrado contra o povo hebreu.
Irresistível para a imprensa mundial, uma vez que, pela primeira vez, as competições olímpicas seriam transmitidas via satélite.
E, infelizmente, irresistível também para o grupo terrorista palestino Setembro Negro — ciente da fragilidade da segurança da Vila Olímpica e da possibilidade real de transformar o sequestro de atletas israelenses em moeda de troca para a libertação de prisioneiros políticos.
Esse conjunto de fatores transformou os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, no cenário de uma das maiores tragédias da história do esporte e pano de fundo de “Setembro 5”, de Tim Fehlbaum.
Nos enxutos 94 minutos de roteiro, o diretor suíço condensa o nervosismo da situação fazendo uso recorrente de tomadas construídas com câmeras sobre os ombros. Trata-se de decisão estética que coloca o espectador dentro da cena e acentua a sensação de urgência daquele momento.
A edição de Hansjörg Weißbrich alterna cortes rápidos e planos longos, transformando em imagens a montanha-russa emocional de tensão, paciência e frustração experimentada pela equipe de jornalistas da ABC Sports. Profissionais que estavam ali para registrar o ponto mais elevado do espírito olímpico, ápice da carreira de jornalistas esportivos, mas que acabaram obrigados a lidar com escolhas técnicas e éticas em um momento sombrio para a humanidade.
Uma circunstância eternizada pela imagem do terrorista na varanda da Vila Olímpica, com o rosto coberto por uma balaclava improvisada, mas, sobretudo, pelos corpos de 11 atletas assassinados que desejavam apenas competir.

