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Tony Manero ontem e hoje

August 13, 2019

 

O filme “Os embalos de sábado à noite” (1977) talvez traga o melhor olhar sobre a cultura urbana da época em que a Disco tomou conta do planeta, um compêndio dos valores e dos desejos daquele período. Era um momento em que os jovens e a sociedade estavam cansados da seriedade dos movimentos da contracultura, da repressão sexual que ainda vigorava e do rock com suas bandeiras ideológicas e artísticas, no qual o subgênero progressivo se expressava em canções intermináveis, com solos exuberantes, mas ao mesmo tempo extremamente cansativos. A viagem psicodélica tinha ido longe demais. E a ressaca teria seu preço. “Saturday night fever” (no original) ilustra com inteligência essa busca da individualidade por Tony Manero (John Travolta), o protagonista, em lugar da coletividade propagada pelos hippies no final dos anos 60.

 

O filme é o destaque da filmografia do diretor John Badham, que aqui não se furta a homenagear diversos símbolos dos anos 70, como a atriz Farrah Fawcett e suas madeixas de fazer inveja aos publicitários que criam comerciais de xampu. Farrah era um dos maiores símbolos sexuais na ocasião, e seu pôster que ficava no quarto de Tony, em que ela aparecia em um maiô vermelho, quebrou recordes de venda. É impressionante que até o hoje ele continue sendo vendido, apesar da atual geração nem saber direito quem ela foi.

 

Além de Farrah, as paredes de Tony ostentavam pôsteres dos longas “Operação dragão” (Bruce Lee) “Rocky, um lutador” (Sylvester Stallone) e “Um dia de cão” (Al Pacino). Esses filmes conduzem as metáforas em relação a Tony: um cara comum que está à procura de um meio de transformar seu sonho em realidade e deixar de ser um perdedor (como em “Rocky” e “Um dia de cão”). As referências continuam em diversas sequências: Tony vai participar de um torneio de dança (Rocky na luta contra Apollo, e Bruce Lee no torneio de artes marciais). Sua arma será sua dança hipnotizante e sem formalidades, da mesma forma que “o estilo sem estilo” do Jeet Kune Do, criado pelo lendário Bruce Lee. 

 

Inspirado nos primeiros trabalhos do cineasta Martin Scorsese, principalmente em “Caminhos perigosos” (1973), Badham retrata os homens que vivem fora de Manhattan – no caso, o Brooklyn: pessoas com ambições, mas com pouca chance de conseguirem atingir seus objetivos. O caminho que separa a proverbial vida medíocre do Brooklyn do sonho americano da ilha de Manhattan parece curto. É uma simples ponte (onde acontecerá a tragédia que vai causar a mudança no protagonista), mas que se revela uma jornada interminável com as dificuldades ao longo da viagem. Até na simbologia da culpa católica, Badham segue a cartilha de Scorsese, fazendo-a presente na família ítalo-americana de Tony Manero, na qual seu irmão é reverenciado por ser um padre. Até os dois bairros ilustram essa relação: Brooklyn como uma espécie inferno em relação ao paraíso, representado por Manhattan. 

 

A diferença em relação à abordagem de Badham está na seriedade e na profundidade que Scorsese empresta a esses temas. O enfoque de Badham busca, de outro modo, exibir o vazio existencial dos personagens e a sua busca constante por aceitação, em um mundo perverso e cruel. Nesse ponto, o filme flerta bem mais com “Amor, sublime amor” (1961), de Robert Wise e Jerome Robbins, que, com exceção das questões raciais do musical dos anos 60, tem nas coreografias orquestradas e ensaiadas pelos personagens um paralelo com a pista de dança de “Saturday night fever”. Há, ali, um esboço de um estilo comportamental à procura de anuência e de um lugar dentro da sociedade. Nas atitudes de Tony Manero, percebe-se um grito de socorro, o que fica claro nos versos da canção “Staying alive”, dos Bee Gees, que abre o filme (também uma homenagem à abertura de “Shaft”, de 1971): “Life goin' nowhere, somebody help me” (“a vida não indo a lugar algum, alguém me ajude”). Naquela caminhada altiva de Tony Manero, com passos obstinados e olhar penetrante, um elemento em cena ilustra o que na verdade está acontecendo com o personagem: a simples lata de tinta que ele está carregando. Tony está preso a uma âncora, algo que o segura, impedindo-o de realizar seu sonho, de sair daquele lugar.

 

Muitas são as dúvidas, e a maior delas está na encruzilhada que determina deixar de ser o eterno adolescente para crescer e se tornar um adulto maduro. Dançar por algumas horas em um sábado à noite é como uma droga entorpecedora para os reveses da vida diária. Uma forma de se sentir um czar em um lugar comandado por homens rudes. Nesse mundo, as mulheres são as que mais sofrem. Elas são divididas em prostitutas e garotas de família. Não existe sequer um meio-termo, só a modalidade machista de qualificar as mulheres. Apesar de toda a luta pela igualdade iniciada no final dos anos 60, o feminismo, ali, ainda não tinha vez.

 

O filme de Badham continua encantando até hoje as novas gerações porque não tenta simplesmente retratar a era Disco. O diretor sustenta o longa em cima da personalidade de Tony Manero e de um retrato da vida dos adolescentes na cidade de Nova York em 1977. O filme é muito mais um estudo do personagem do que um registro de uma época – ao mesmo tempo, é também uma reflexão sobre a maturidade. Travolta incorpora o anti-herói com uma interpretação repleta de carisma e nuances que lhe rendeu uma justa indicação ao Oscar de melhor ator. Enquanto seduz o espectador com seu jeito de dançar e sua beleza jovial, ele é arrogante, narcisista, sexista, misógino. E seus contrastes tornam o personagem real e cativante. Mesmo com sua conduta reprovável, os homens querem ser como ele, e as mulheres o querem na cama. Travolta encarna com perfeição o jovem em desajuste com seu ambiente. A cada cena em que seu personagem contracena com os amigos na noite esfuziante, fica claro em sua expressão o quanto ele quer fugir daquele lugar.

 

Seu carinho por Stephanie (Karen Lynn Gorney) é o meio para ele conseguir cruzar a ponte que liga o Brooklyn a Manhattan, mais uma metáfora para a mudança desejada. Em meio a todo o orgulho e a pose de machão de Tony, percebe-se sua desilusão com a vida. As noites de rei aos sábados já não bastam. A dança entorpecedora já não o leva mais ao paraíso. E Stephanie pode ser o catalisador dessa mudança, para se chegar ao sonho tão almejado. O filme de Badham se encerra com Tony conseguindo cruzar a ponte, deixando em aberto o que ele fará depois de aparentemente ter amadurecido. Tony Manero recebe sua lição de vida: aprende que não pode só pensar em si, precisa levar em consideração os outros.

 

Pena que em “Os embalos de sábado continuam” (1983), sequência dirigida por Sylvester Stallone, esses temas são abandonados. O filme de Sly se concentra em sequências com ensaios, ataques de ciúme e discussões sem sentido. Não está interessado em desenvolver a nova chance de vida de Tony Manero. Lembra, em alguns momentos, a estrutura de “Rocky III – O desafio supremo” (1982), também dirigido por Stallone. Sai a banda Survivor com seu “Eye of the tiger”, que simboliza a narrativa do terceiro filme sobre o lutador de boxe, e entra Frank Stallone com seu “Far from over”, na tentativa de ilustrar o drama de Tony. O pior é que nem essa tentativa de ser semelhante a “Rocky” funciona, já que as atitudes de Tony são esquecidas, e ele parece desprovido dos sentimentos que o levaram à sua jornada. O personagem acaba se tornando um clichê de si mesmo. 

 

“Staying alive’ (no original) lembra a programação da MTV: uma série de videoclipes com interlúdios dramáticos entre as músicas. O filme é um produto típico dos anos 80, no qual tudo soa artificial. Essa abordagem seria perfeita se seguisse as mesmas intenções da obra literária de Brett Easton Ellis (“Abaixo de zero” e “Psicopata americano”, entre outros), autor que ilustra como ninguém a juventude dessa mesma década, e especialmente os yuppies perdidos com suas vidas vazias.

 

Em “Os embalos de sábado continuam”, falta a sinceridade do original. O número musical final está mais para um show erótico de segunda categoria, bem ao estilo “Bite”, entre outros que são encenados na parte sem glamour de Las Vegas, do que para os musicais da Broadway. Lembra também o show protagonizado em “Showgirls”, de Paul Verhoeven, obviamente sem a carga de sexo e violência explícita a serviço de uma sátira social, típica do cineasta alemão. Tony Manero se tornou uma espécie de Rambo da Times Square, em que a metralhadora M-60 foi substituída pela dança atlética. A diferença entre “Os embalos de sábado à noite” e “Os embalos de sábado continuam” (Robert Stigwood produziu ambos os filmes) é que o primeiro traz um senso de realidade que vem com o desenvolvimento dos personagens e suas idiossincrasias, já a sequência é a porção falsa dessa realidade. 

 

Mas, mesmo com todos os equívocos, é inegável que Stallone fez um filme que exemplifica o cinema visivelmente comercial que estava sendo feito na época em todos os gêneros, fosse ação, drama, comédia e até terror. Com todos os seus defeitos, o filme de Sly demonstra que não bastava cruzar a ponte para chegar ao pote de ouro do outro lado. Não há como apagar a vida pregressa. O passado e as escolhas de Tony Manero o acompanham nesse novo ambiente. E fica a impressão de que as lições não foram aprendidas. Manero demonstra estar ainda mais amargurado – sinal de decepção. O corpo talhado e bombado de Travolta explica as ambições artísticas de Stallone: sai a formosura natural para dar passagem a um monte de músculos definidos à exaustão, em uma explosão de bíceps, tríceps, quadríceps, peitorais. É uma dica de como os anabolizantes se tornaram uma febre nos EUA – e o modelo de beleza será outro, numa ditadura ainda mais rígida sobre a aparência. As coreografias leves e divertidas dão lugar aos movimentos bruscos e agressivos. E, com essa reflexão, entende-se o porquê do titulo do filme – na tradução literal, “sobrevivendo”: é a forma que se tem de seguir em frente sob o peso dos novos tempos. 

 

(Texto publicado na revista da mostra "Nos Embalos de Uma Parceria", realização ACCRJ/Cinemateca do MAM - agosto 2019)

 

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