Ao Conselho do Museu de Arte Moderna - RJ


Público na Cinemateca numa tarde de domingo da Mostra Ingmar Bergman parceria com a ACCRJ, 11 de março de 2018


Ao Conselho do Museu de Arte Moderna - RJ


A notícia da saída de Fábio Szwarcwald da direção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro é o apagar das luzes de uma gestão que não dedicou atenção à imensa importância nacional e internacional da Cinemateca do MAM.


A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ – lembra a dedicação e a grandeza de nomes como Cosme Alves Netto, José Carlos Avellar, João Luiz Vieira, Susana Schild e mais recentemente Ricardo Cota que desempenharam papéis cruciais na preservação da memória cinematográfica brasileira e, mais que isso, transformaram a Cinemateca num espaço que acolhia público e cineastas envolvendo todos no senso de proteção do imenso acervo que exige tratamentos muito específicos de arquivos que contam a história do cinema no nosso país.


De 2015 a 2020, a Cinemateca do MAM viveu um de seus momentos mais efervescentes com eventos diversos e mobilizadores que potencializaram o pertencimento dos cariocas com esse espaço de preservação e de consumo do cinema de qualidade, principalmente, do cinema brasileiro. Por dois anos seguidos, a Cinemateca do MAM recebeu o prêmio de melhor mostra do ano pelos críticos do Jornal O Globo – os centenários de Frank Sinatra (2015) e Kirk Douglas (2016). O dever e a satisfação de formar plateias eram essenciais na gestão de Cota, mas tudo foi diluído por uma administração totalmente desconectada com os fundamentos de uma cinemateca. A programação precisa voltar ao seu objetivo essencial: o fortalecimento e preservação da memória e a valorização incondicional do cinema brasileiro.


Só para citar alguns exemplos, em 2018, a Cinemateca viveu momentos históricos como a masterclass do diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro. Profissionais, estudantes e amantes do cinema viveram esse momento único com o vencedor de três Oscars.


A parceria inédita com a Associação Brasileira de Cinematografia também foi outro momento importante do período 2015-2020, com masterclasses de profissionais como Affonso Beato, Walter Carvalho e Lula Carvalho. Nomes como Domingos de Oliveira, Ruth de Souza, Paulo José. Cacá Diegues, Lucia Murat, Silvio Tendler, Eryk Rocha, Vladimir Carvalho, entre tantos gigantes do cinema brasileiro, tiveram suas obras reverenciadas nos debates organizados numa era em que a Cinemateca do MAM foi foco de acontecimentos dignos de seu valor cultural e dos artistas destacados. A transferência do acervo não fílmico para o novo Centro de Conservação, na rua do Senado, foi outra conquista importante, concretizada antes da gestão do senhor Fábio S., que agora aponta como se iniciativa sua fosse.


Os meios culturais resistem à pandemia e criam meios de inovação respeitando os protocolos de saúde, mas a inércia no caso da gestão da Cinemateca foi lamentável. O espaço ficou fora da programação das edições 2020 e 2021 do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, um dos principais eventos do setor no Brasil e na América Latina, sempre presente em edições anteriores. Uma verdadeira lástima


A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, a pioneira no país, criada em 1982, reúne entre seus membros profissionais dos mais importantes veículos de televisão, jornal, rádio e internet. Nós fazemos parte da Fipresci, a Federação Internacional de Críticos de Cinema. Entre nossos papéis está o incentivo ao estudo e à relação crítica com o cinema. Com muito orgulho realizamos mostras em conjunto com a cinemateca, como as dedicadas a Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Paul Newman e temáticas, como Alusões Homoeróticas do Cinema Clássico, entre outras. Logo no início da malfadada gestão Fábio S., fizemos questão de procurá-lo para darmos continuidade às ações. Enviamos duas cartas e na única resposta, ele não demonstrou vontade de prosseguir com uma parceria que existe desde que a ACCRJ foi criada e muitos curadores da Cinemateca são integrantes da associação. Infelizmente, Fabio desconhece a Cinemateca, seus curadores, e suas parcerias e nunca teve vontade de conhecer, numa demonstração de desrespeito que mais tarde soubemos haver sido repetido em outras áreas.


A Cinemateca do MAM é vital para essa e tantas outras conexões culturais que engrandecem o país. Que essa página nula da gestão que se vai seja virada e que possamos voltar a ter o compromisso com o CINEMA, ocupando com funcionalidade, respeito e generosidade cinéfila a especial Sala de Cinema Cosme Alves Netto.


Saudações,


Ana Rodrigues, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro - ACCRJ


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