Sob a Pele (Under the Skin), de Jonathan Glazer (Reino Unido / EUA / Suíça)

Por Francisco Russo

Atração fatal

 

Pode-se dizer que 2014 tenha sido o ano de Scarlett Johansson no cinema, ao menos no Brasil. O ano começou com a atriz dando voz ao cativante sistema operacional Samantha em Ela, passando por mais uma reencarnação como Viúva Negra em Capitão América 2 – O Soldado Invernal e a protagonista de Lucy. Sob a Pele completa este quarteto inusitado, no qual a atriz pôde enveredar por diferentes facetas que, de certa forma, dialogam entre si.

 

Mundialmente conhecido como "o filme em que Scarlett Johansson surge nua", Sob a Pele é mais do que isso. O diretor Jonathan Glazer oferece uma ficção científica diferente, que aposta mais em perguntas do que em respostas. É por meio de uma inquietante estranheza, seja visual ou mesmo de narrativa, que o espectador é convidado à imersão neste universo envolvendo alienígenas e terráqueos, uma analogia com as relações de poder que respingam no relacionamento entre homens e mulheres.

 

A história gira em torno de uma mulher sem nome, Scarlett Johansson, que vaga pelas ruas de uma cidade escocesa à caça de homens. O olhar sedutor e o próprio corpo são suas principais armas, além do veículo disponível para encaminhar algoz e vítima a um local reservado. Lá, o desejo masculino conduz à perdição rumo a um misterioso pântano, cuidadosamente encenado como se os atores estivessem dentro de uma instalação artística. Bizarro, mas coerente.

 

É curioso notar como funciona a estrutura de captura: a mulher é um corpo sem emoções, cujo único objetivo é seduzir sem dar prazer. É neste ponto que entra a tão badalada nudez, servindo à proposta da atração sexual. Entretanto, no decorrer do longa-metragem, é despertada uma certa curiosidade neste até então invólucro vazio. "Por que atraio tanto os homens?" é a pergunta jamais pronunciada que norteia a segunda metade do filme.

 

Esta procura por uma resposta – alguma resposta – leva a alienígena a uma busca pessoal na qual, insegura, ela aceita a possibilidade das emoções e, consequentemente, torna-se mais frágil, tanto mentalmente quanto fisicamente. O desfecho, por mais que seja explícito sobre quem é este ser, fala muito mais das relações de poder entre homens e mulheres do que propriamente do porquê da existência extraterrestre no planeta.

 

Esta relação entre racionalidade e emoção, curiosamente, está também nos demais filmes estrelados por Scarlett Johansson lançados em 2014, sob variadas formas. Se em Ela sua personagem é um sistema operacional que busca, cada vez mais, compreender e adquirir emoções humanas como uma necessidade intrínseca à existência, Lucy apresenta uma mulher que, na medida em que desenvolve sua capacidade mental, mais racional se torna. Até a Viúva Negra passa de leve pelo tema, ao esconder segredos e emoções do passado para manter-se fria e calculista. São filmes que, cada um à sua maneira, buscam melhor entender esta complexa relação que rege todo ser humano, em especial nas mulheres.

Under the Skin – EUA/ Reino Unido/ Suíça, 2013 - Direção: Jonathan Glazer – Roteiro: Walter Campbell, Jonathan Glazer – Produção: Nick Wechsler, James Wilson - Fotografia: Daniel Landin – Montagem: Paul Watts – Elenco: Scarlett Johansson, Jeremy McWilliams, Paul Brannigan, Adam Pearson – Duração: 108 minutos.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro