Soul

Por Ricardo Largman

Vida, morte e além

Jazz é um estilo de música não só para os ouvidos, mas também para a alma. Muitos críticos já escreveram isso. Clichê. Para o cinema, contudo, traduzir tal ideia em imagens e sons sempre parecia difícil, irrealizável. Parecia. Com “Soul”, mais uma vez a sétima arte mostra como superar os próprios limites. A animação 2D, pouco ortodoxa (comparável, pelo tema, à “Viva – A vida é uma festa”, da mesma Pixar), traz uma leitura adulta e original do pós-vida, com espaço para os improvisos, a criatividade e todo o suingue que caracterizam esse estilo musical, não por acaso raiz da “soul music”.

 

Ambientada numa fervilhante e aceleradíssima Nova York, a narrativa é pontuada por raros alívios cômicos. As cenas de jazz são as que, como numa espécie de hipnose visual e sonora, mudam o ritmo vertiginoso dos dois singulares protagonistas. De um lado está Joe, professor de música frustrado e pianista de jazz de talento excepcional, que vê a primeira e última oportunidade de realização do seu sonho cair literalmente dentro de um bueiro. De outro, está 22, uma “alma penada” juvenil e irascível que acumula testes vocacionais nada profícuos com gênios da humanidade como Copérnico, Carl Jung, Gandhi, Muhammad Ali, Madre Teresa de Calcutá. Juntos, Joe e 22 empreendem uma desesperada tentativa de troca de corpos (a parte, digamos, menos “madura” da animação), embora não percebam que, acima de tudo, o que buscam é o sentido da vida.

 

Dirigido por Pete Docter e Kemp Powers, também corroteiristas, “Soul” não é nem pretende ser um filme “de jazz”. Mesmo assim, a eclética trilha resgata a lindíssima “Cristo Redentor”, de Duke Pearson, na voz (ou sussurro) de Flora Purim, “Subterranean homesick blues”, de Bob Dylan, e, sim, “II B.S.”, com a dissímil introdução do contrabaixo de Charles Mingus. Bela trilha, sem dúvida. Mas a serviço de algo maior.

 

Do início ao fim, o longa desenvolve alguns dos mais fundamentais preceitos do espiritismo e, simultaneamente, questões caras ao existencialismo, como vida, morte e o que pode haver além. Em meio à correria alucinada do dia a dia, às massacrantes rotinas familiares e profissionais dos tempos modernos, Joe e 22 percebem, pouco a pouco, e nos detalhes, o que é, ou foi, relevante para se sentirem genuinamente felizes. Um coopera involuntariamente com o outro; avançam, retrocedem e quase se sabotam. Não desistem, porém. Diante das vicissitudes da vida e da morte, ou do próprio destino, a saída pode ser esta: improvisar. Como no jazz.

Soul (Soul), de Pete Docter e Kemp Powers (USA/2020). Com as vozes de Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton.

 

Animação/Aventura/Comédia. Sinopse: Joe é um professor de música do ensino médio apaixonado por jazz, cuja vida não foi como ele esperava. Quando ele viaja a uma outra realidade para ajudar outra pessoa a encontrar sua paixão, ele descobre o verdadeiro sentido da vida. 100 minutos. Livre.

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