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Superman

Por Rodrigo Fonseca

Lex Luthor, alegoria da xenofobia

 

Orçado em US$ 225 milhões, “Superman” faturou globalmente US$ 616 milhões, atestando a vitalidade do alienígena criado nas HQs em 1938 por Jerome Jerry Siegel (1914-1996) e Joseph “Joe” Schuster (1914-1992), sobretudo num mundo onde a imigração é assombrada por ódio e intolerância. Em sua passagem pelo Brasil, David Corenswet — intérprete de Kal-El, um cidadão do planeta Krypton em diáspora — explicou que o diferencial humanista de seu personagem é o fato de seu lado terráqueo... Clark Kent... ser um cosplay, ou seja, um disfarce “de gente”.

 

Na medida oposta, seu nêmesis, Lex Luthor, é gente (grã-)fina, literalmente. Lex é rico. Tem tanto dinheiro quanto o Bruce Wayne lá de Gotham, cidade vizinha a Metrópolis, que ganhou respeito no planisfério midiático por ter um jornal onde “aconteceu, virou manchete”, o Planeta Diário, e angariou os olhos do mundo por ter virado o lar do Homem de Aço. Toda e qualquer fronteira ao intelecto, aquelas que nenhuma IA transpõe, a mente de Lex ultrapassa, à força dos inventos de sua LexCorp.

 

No roteiro (sinuoso, mas sólido) de James Gunn, também realizador, há um universo paralelo compacto, com códigos da física semelhantes aos nossos. Sua gênese é mérito de Lex, bandido aparentemente elegante. Seus neurônios transcendem tudo, menos a barreira do racismo. O que está em jogo no atual regresso ao cinema do super-herói mais famoso dos quadrinhos, em plena Era Trump, é o horror que um magnata nutre pelo que é diferente dele. E tal horror produz violência.

 

Lex despreza Kal-El por saber que ele vem de outro planeta. Ele é estrangeiro, logo, em sua dinâmica, impõe risco. Heróis como o Lanterna Verde Guy Gardner, um ferrabrás interpretado por Nathan Fillion com ginga, não fazem sua careca lustrosa coçar porque são da Terra e, ainda por cima, dos Estados Unidos. Logo, são de casa. Kal-El, não. Ele vem de fora.

 

Sob a ótica de Lex, uma espécie de Cesar de uma Roma pós-moderna, Kal-El é emissário das tribos bárbaras que vem conspurcar o pão e o circo de um Coliseu que não se exibe por meio de lutas, mas por invenções eletrônicas, toques de celular e exibicionismo nas redes sociais. Elas condenam o Super-Homem quando ele é acusado de descender de uma linhagem conquistadora.

 

O poder de Lex é o capitalismo: com dólares, ele alimenta intolerâncias. Nicholas Hoult, um talento dos infernos, sacou isso e transforma o mais famoso vilão dos quadrinhos em um ser bestial, uma alegoria do atual zeitgeist da América. Gunn narra essa conversão simbólica do Lex Zé Pelintra de Gene Hackman (lá no “Superman” de 1978) para um Lex trumpista com mestria.

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