Tatuagem, de Hilton Lacerda (Brasil)

Por Rodrigo Fonseca

Tatuados estamos nós que amamos (e perdemos) tanto

 

Do fino da fossa à apoteose da saudade, do desabafo amoroso à marchinha, da ladainha romântica à quaresma pós-quarta de cinzas, duas canções servem de bússola a Tatuagem. Arquitetado como sinestesia a partir da fotografia sensorial de Ivo Lopes Araújo, o longa foi responsável por consagrar um dos roteiristas mais aclamados do país, o pernambucano Hilton Lacerda, como diretor. Em sua abertura vem “Esse cara”, e, de seu fecho, brota “Bandeira branca”. No trânsito de uma música a outra, numa reconstituição de Pernambuco em 1978, acossado pelo governo militar, uma paixão declarada pela igualdade vai sendo costurada, ao mesmo tempo em que se desenham formas de resistência à repressão (ditatorial, sexual, em suma, ideológica). Uma trupe teatral, alocada em um cabaré, o Chão de Estrelas, serve como um bunker para a liberdade a fim de combater a opressão fardada no governo, enquanto o mentor do grupo se joga nos braços de um soldado recém-integrado às Forças Armadas.  

 

Quem mais (e melhor) resiste aos milicos (e a todo o resto), no recorte histórico/estético de Lacerda, são as artes. De um lado, a arte de representar (na forma do teatro, da poesia e do cinema) e a arte de amar (na forma fálica de um aríete em marcha contra a hipocrisia). No casamento desses dois hemisférios, celebrado em um gesto político, surge um longa muitas vezes rotulado de “filme gay”, mas que, mesmo numa exposição viril (grifo obrigatório) da homoafetividade, transcende bandeiras. O corpo é seu leme, seu norte. O corpo como estandarte da vida, em suas planícies e falésias, seus desastres e seus carnavais.

 

Incorporando Maria Bethânia, de microfone em punho, Clécio Wanderley (Irandhir Santos), ator, dramaturgo e cabeça do clã de artistas responsável pela ocupação do Chão de Estrelas, amplia a libido da Recife dos anos 1970 ao som de “Esse cara”. Nos versos “Ele está na minha vida/ porque quer/ eu estou pro que der vier”, Clecinho dá sinal verde para que desejos tatuados em corações empapuçados de cerveja ganhem forma e suor. Entre eles, o desejo que sente por um jovem recruta, Arlindo, vulgo Fininha, interpretado por Jesuíta Barbosa. Os beijos trocados por eles nas madrugadas pavimentam uma relação sólida em um mundo em transformação: uma cidade que, feito um espelho do Brasil, reflete as instabilidades políticas dos anos de chumbo. Um mundo desafiado pelas irreverências de Clécio e seus atores em números musicais como a “Canção do cu”, mimo da trilha de DJ Dolores.

 

Mas o bem-querer de Clécio e Fininha é apenas uma de muitas relações cimentadas por Lacerda numa narrativa interessada em conjugar o verbo gostar sob diferentes desinências. Entre elas estão a paternidade (pós-moderna) e a amizade, representada no cabo de guerra coberto a plumas entre Clécio e a diva Paulette (Rodrigo Garcia, em um brinco de atuação).

 

Xará do thriller dirigido em 1981 por Bob Brooks com Bruce Dern e de um drama alemão de Johannes Schaaf, a Tatuagem de Lacerda, retocada pela interpretação devastadora de Irandhir, demarcou (uma vez mais) o relevo da linhagem recifense no cinema nacional. Foi abençoada com o Kikito de melhor filme em Gramado, quatro troféus no Festival do Rio (incluindo o prêmio Fipresci) e com a fama de ter esgarçado as fronteiras da discussão sobre identidade sexual na tela para fora das entradas e bandeiras de guetos e nichos. E, quando vem “Bandeira branca”, gemido por Dalva de Oliveira, sabe-se que Lacerda pede paz ao esquadrinhar nossa capacidade de perder e de nos regenerarmos na bitola Super-8 do amor.
 

Tatuagem – Brasil, 2013 – Direção: Hilton Lacerda – Roteiro: Hilton Lacerda – Produção: João Vieira Jr. – Fotografia: Ivo Lopes Araújo – Montagem: Mair Tavares – Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado – Duração: 110 minutos.

© 1982 - 2021 Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro